Sobre

Como poderia esse sujeito se tornar um bailarino?

Alteração mental caracterizada pelo afastamento, mais ou menos prolongado, do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. Um sentimento ou sensação que foge ao controle da razão. Você reconhece alguma destas sensações descritas aqui anteriormente? Eu sinto todas elas desde que comecei a fazer ballet. O que o dicionário define como loucura, resume minha vida em até 140 toques.

Seguimos com a analise do meu caso. Um típico sujeito tímido, descoordenado, de cabeça “mundo da lua”, que tentava esconder seus 1,80m curvando as costas resolve um certo dia, aos 20 e poucos anos, começar a fazer aulas ballet. “Mas os peixes não podem voar, não pertence a natureza deles” diriam os especialistas. O sujeito EU em questão é um perfeito candidato para a plateia, diga-se um espectador de primeira. O tipo de perfil que se veste como um personagem, mas se envergonha quando é percebido; que se emociona com a música, mas não entende compasso rítmico; que se encanta com os movimentos, mas não decifra os passos.

Como poderia esse sujeito se tornar um bailarino? Vamos fazer como os especialistas fariam, vamos retornar e analisar a infância. Criança tímida, filho único, convívio com muitos adultos, poucos amigos e muito, mas muito mesmo, tempo de leitura e televisão. É um clássico caso da alienação infantil. Vivia aquilo que lia e que assistia. Era levemente adicto por desenhos animados e contos de fadas, essas coisas tolas que assustam os adultos. Perseguições ao som de orquestras, grandes façanhas guiadas pelo som do piano, personagens que se moviam como em uma coreografia.

Cachorro falante, elefante voador, castelos, príncipe e princesa e até um pato que era feio faziam parte da tela mental do sujeito analisado. Nosso sujeito não é aquilo que podemos chamar de “normal”, isso é fato. Mas houve grande esforço para conquistar uma certa normalidade. Um esforço sofrido, ingênuo, como quando um filhote de cisne é chocado em um ninho de patos, muito semelhante ao conto dinamarquês de Hans Christian Andersen. Contudo a vida se encarrega de (re)escrever certas histórias.

Assim como o pacato Dr Jekyll jamais imaginaria que o intimidador Mr Hyde habitava dentro dele, do clássico “O Médico e Monstro” de Robert Louis Stevenson; as pessoas notavam algo em nosso sujeito que ele ainda não havia percebido. E o esforço para ser alguém normal só durou até o momento em de entrar em uma sala com um espelho, música de piano e uma barra. Meu nome é Samuel Arjona Nogueira, sou aprendiz de bailarino desde 2017, “Mais Plié” é a correção que eu mais escuto em todas as minhas aulas de ballet, minhas maiores qualidades para a dança são a coragem e o querer, eu escrevo para mostrar a mim mesmo que posso ser capaz.